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Ao toque do sino

Poucas experiências como a cidade que permite escutar o som dos sinos, pode formar um quadro tão bucólico, quanto sensível e memorável.
Igreja na praça, o aceno demorado das pessoas, o riso das crianças, a tradição conectando presente e futuro... O silêncio. Um silêncio que permitiu às comunidades, no início da colonização, encher com as badaladas dos sinos as horas nos lugares onde o tempo se arrastava pelas ruas ao ritmo do passo vagaroso do nono.

O sino, porque fala à alma, anunciava à comunidade os momentos de reflexão e meditação. A cada intenção e necessidade uma combinação que ecoava cortando nuvens para cumprir a função de lembrar aos cristãos a Santíssima Trindade - Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Três repiques de três badaladas cada um, às 6, na hora do Ângelus, ao meio-dia e às 18h para a Ave-Maria, seguido do respeitoso ritual da retirada do chapéu, o sinal da cruz e a reza das três Ave-Marias à Nossa Senhora ou a oração ao Anjo do Senhor.

 

Para os horários da reza do terço ou da missa, tocava-se i boti, bancadas únicas e secas, badaladas apenas num lado do sino. Tocava-se três vezes: a primeira para avisar aos que ainda estavam em casa que se aproximava a hora da missa, o segundo sinal para avisar que faltava pouco para o início das orações e o terceiro no momento da entrada na igreja sinalizando o início das orações. Aos domingos, além dos horários previstos, o sino tocava também às 10h.

Os sons da vida também ecoavam através dos sinos, comunicando fatos da vida espiritual da localidade. Os ritmos das badaladas poderiam expressar ou acordar na comunidade sentimentos de alegria, reverência, saudade, dor, confiança, esperança, zelo, paz e plenitude.

É deveras curioso, se formos pensar, como do mesmo instrumento, através dos mesmos timbres e tons, o som pode promover comoção ou então encher o dia de alegria e rejubilo.

Não sem motivo o sino foi o mensageiro do tempo e das horas. Um recurso para salvaguardar a comunidade do mal, dominar a natureza, promover o encontro ou proferir uma pungente despedida.

Para se dizer, ao fim de tudo, que hoje “Um sino canta a saudade de qualquer coisa sabida e já esquecida” - Carlos Drummond De Andrade.

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Rosana Marina

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