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Cidade e memória

Cidades são mensagens ao céu aberto, se oferecendo à leitura onde se pode descortinar toda trama que tece e move a estrutura que compõe o indivíduo. Oferecem-se ao diálogo permeando nossos questionamentos, nossas expectativas, nossos anseios. Transforma-nos em atores, chamando-nos para atuarmos no cenário onde se descortina a trama e o enredo de sua história comprometendo-nos com o engajamento e a continuidade de tudo que ela é e representa. São permeadas por datas, fatos, guardam mistérios, lendas que nos encantam e nos intrigam.

E como todas as histórias possuem uma identificação temporal, estão inscritas numa ordem e sistema político-social e econômico para que possamos decifrá-las e desnudá-las.

Assim a história de Garibaldi, nasce da experiência do colono em solo brasileiro com o enfrentando de toda sorte de desafios: os bugres, povo nativo da região, animais selvagens, a mata densa que precisou ser derrubada para dar espaço à sua moradia e a lavoura. Suas ações foram transformando a paisagem, mudando-lhe o contorno, pintando cada estação com uma cor distinta e perfumando o ar com o doce da uva. Fez da combinação do vinho, do pão, do queijo e do salame na identidade gastronômica da região.

Aos poucos as picadas deram lugar às ruas e passagem aos planos e sonhos dos seus usuários, dividiu a intimidade de cada habitante, acompanhou momentos de riso e pranto, se ofereceu a tantos outros atalhos para acolher as necessidades da Vila, pois a Buarque começava a curva-se dando aqui e ali sinais de sua fadiga, demonstrando não mais conseguir sozinha abraçar as exigências da cidade emergente.

Da Buarque também se podia ouvir os cascos dos muares dos tropeiros que traziam toda sorte de produtos para abastecer a colônia. Na bagagem, uma mercadoria em especial, produzia toda sorte de comentários e questionamentos: as crenças, misturadas a histórias e lendas dos tantos lugares que a memória registrou, cujo nome nunca se ouvira e distância nem se imagina quanta seria. E eles, os tropeiros sabiam e diziam coisas que encantava a toda gente. Uma gente que não tinha outra forma de conhecer o mundo a não ser pela experiência e falar do outro.

Esta é a minha cidade, que se mistura com minhas memórias e... “Quando eu for, um dia desses / Poeira ou folha levada / No vento da madrugada, / Serei um pouco do nada / Invisível, delicioso / Que faz com que o teu ar / Pareça mais um olhar, / Suave mistério amoroso, / Cidade de meu andar / (Deste já tão longo andar!) / E talvez de meu repouso...” (Quintana).

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Rosana Marina

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