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Como nascem as ideias?

Ideias, ideias... quero tê-las, mas como? Percorro a cidade permitindo senti-la de forma que, num determinado momento não sei se a cidade sou eu, ou sou ela. Sei dizer que os sons rasgam o espaço, o tempo, e me encontram titubeante tentando identificar uma inspiração. Tudo chega assim como que por um encantamento onde sentimentos e associações trazem experiências que permitem enxergar uma nova função e papel para tudo que o olho toca.

Acontece, por vezes, de algumas ideias chegarem de surpresa... como uma visita que não se anunciou.

Com o tempo, um aliado, descobrindo-se onde as ideias se escondem. Há as que dormem sob o travesseiro, outras que se debruçam no peitoril da janela onde já me acostumei procurá-las. Outras ainda engendram peripécias mil para que as possamos alcançá-las.

Só sei que ideias gostam de nos desacomodar, dissimulam o caminho, mas sempre estão onde se pode encontrá-las, basta saber como. De certo sei que as ideias não gostam de paredes estanques... de cercas, nem o que é reto e único.

Encontrar ideias é como encontrar a palavra certa. Há palavras que chegam tímidas, outras exultantes. Assim como certas palavras, há nas ideias tanto espaço e significado, que não cabem em si. Há palavras cujo sentido está na busca, que só fazem sentido quando são lidas no gesto mudo, num quase desnudamento que se tem sempre a impressão de poder tocar o que se procura.

E talvez ai esteja a magia da procura... o sentido não está na palavra, nem na ideia que nos encontra, mas naquilo que nos transforma. Seria da natureza da palavra assim como a resposta para o nascimento das ideias o indecifrável? Um quase entendimento que não se chega nunca a esgotá-lo?

O único sentido que traz compreensão as descubro em Fernando Pessoa: “O ambiente é a alma das coisas. Cada coisa tem uma expressão própria, e essa expressão vem-lhe de fora”. De fora de mim, de ti... da cidade de amores, de rumores que cortam ruas, que sangram sonhos.

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Rosana Marina

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