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O espírito do tempo

Entender como o design pode se inserir neste momento cultural que se desenha caótico e ambíguo torna-se imprescindível. Mas como expressar o espírito do tempo quando não mais se reconhece os limites e conceitos que até então permitiam experimentar conforto e segurança?
Hoje, de certo, temos apenas a constatação de que estamos sendo desafiados a buscar pontos de vista dilatados e tão mais complexos de serem entendidos. A própria palavra entendimento parece esvaziar-se. Já, ou nem sempre encontramos o sentido que se busca quando da procura pelo entendimento. De papável, apenas a premente exigência de estar diferente no mundo: engajar-se na ideia de que a igualdade é plausível e respeito para tudo que não seja a nossa escolha ou preferência é indispensável, essencial e inadiável.
É deste processo de procura, antes de perguntas, do que respostas, mais de dúvidas do que certezas que se alimenta a criação, trazendo um novo foco, com o olhar voltado para um ponto determinante ao design – a linguagem. Uma linguagem para um design que carregue consigo a premissa de promover uma percepção que nos faça enxergar além do visível. Que permita, sobretudo, o contato com os sentimentos que tecem a realidade para promover a tão necessária transformação social. No dizer de Andrea Branzi “O design atual é resultado de uma democracia direta. Tempos atrás era uma atividade de elite, e agora é uma profissão de massa, expressão até política de uma geração que vê a feiura do mundo e decide modificá-lo de repente, a partir de pequenas coisas.”.
Da experiência de desordenar/ordenar, que permeia a condição da criação identifica-se um tênue limite entre design e arte: ambos discorrerem de forma sensível sobre os nossos afetos (dores e sonhos). Gerando uma condição que anuncia um novo papel e função para o designer: promover um pensamento que na prática motive a renovação/reconciliação da maneira de se produzir aliado à capacidade de ampliar o discernimento do que vai entre nós e o mundo, tornando-nos mais conscientes dos nossos hábitos diante do consumo.  
Pode-se, por hora, dizer que o espírito do tempo – tradução da expressão alemã zeitgeist, é tudo o que cabe nas discussões sobre o cenário cultural contemporâneo. É o que move o desenvolvimento de produtos e a criação de soluções relevantes que ameaçam o equilíbrio da sociedade – a minimização das desigualdades políticas, raciais e religiosas. É um cenário que precisa de ações e soluções para o desenvolvimento econômico e material que não agrida o meio ambiente. De posturas e atitudes que tornem a humanidade, mais consciente de si, de suas verdadeiras necessidades para que de fato haja liberdade de escolhas e opções.
E porque faz parte do espírito do tempo, fica a reflexão sobre o pensamento de Johann Goethe: “Ninguém é mais escravo do que aquele que se julga livre sem o ser”.

É deste processo de procura, antes de perguntas, do que respostas, mais de dúvidas do que certezas que se alimenta a criação

Rosana Marina

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