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Para além do que se enxerga

Considerando que o homem contemporâneo está inserido num universo de imagens, é plausível compreender de que maneira são lidas as imagens fotográficas; como elas se inserem no mundo e como se processa o trabalho ideológico que controla nossos gostos, conceitos e o uso que dela fizemos.

A concepção realista, que implica em ver a fotografia como se esta fosse um espelho do real, é uma das maneiras mais recorrentes de se olhar e receber as imagens fotográficas. Esta concepção, como observa Arlindo Machado, é quase a mística do fenômeno fotográfico. Se lançarmos um olhar sobre a história da fotografia, veremos a existência de um esforço seguindo em direção ao aperfeiçoamento tecnológico para produzir a impressão de realidade, ou seja, para que as imagens fotográficas possam representar a própria realidade. Para nos certificarmos da assertividade desta colocação, basta que percebamos a deferência, que em alguns casos, chega a veneração, pelas imagens que registram os rituais de passagens como: casamentos, formaturas, batizados... ou notarmos a postura defensiva que nos colocamos diante da hipótese de desfazermo-nos da fotografia de um ente querido, como se esta contivesse um sopro de vida. Ou então da ira contra determinada pessoa ou circunstância que nos leva a destruir suas imagens, como se tal ato aplacasse os enganos e as dores que nos causaram.

Pensar que a fotografia é apenas o que se pode nela identificar e nomear é pouco e reducionista. Dela se pode extrair conteúdo, estabelecer relações, fazer associações e encontrar um sentido sobre o tema apresentado que até então não havíamos compreendido. O significado numa fotografia se encontra nos detalhes como a cor, ângulo e enquadramento optados pelo fotógrafo aliados à experiência de vida e bagagem cultural do observador. Pode-se chamar a este processo de leitura. Ler uma imagem é compreendê-la, é interpretá-la, tarefa que tem como aliado a ousadia de arrancar da imagem tudo o que ela pode oferecer. Ler, portanto, não é apenas enumerar os elementos contidos na imagem, é estabelecer contado com os sentimentos por ela suscitados. O ponto nuclear do processo é a participação do intelecto e exige uma troca de papéis: passando-se de contemplador para observador crítico. E pelo fato do sentido estar dentro de nós torna a linguagem visual dialeticamente singular e universal.

Sobre a fotografia e suas possibilidades melhor não diria senão Boris Kossoy: “Tem coisas que estão além da fotografia, que moram no invisível da imagem, nos fatos que levaram alguém num determinado dia a fotografar tal cenário, com tais pessoas.”

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Rosana Marina

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